Sustainable Futures Center ImpackTalk
Nota: Este artigo baseia-se na gravação da Impact Talk promovida pelo Innovation X Hub.
A emergente Economia Azul está a redefinir o paradigma do desenvolvimento sustentável, posicionando os oceanos e os ecossistemas costeiros como motores de crescimento económico regenerativo. Entre os recursos subvalorizados deste domínio, as macroalgas destacam-se como um ativo estratégico de múltiplas aplicações e elevado potencial de valorização.
Recentemente, o Sustainable Futures Center, um dos impact centers do Innovation X Hub da Porto Business School, promoveu um seminário dedicado à “Bioeconomia Azul”, reunindo especialistas de diversas áreas para explorar o valor económico, ecológico e tecnológico das macroalgas. A sessão revelou não só o estado da arte científico e empresarial, mas também o fosso entre o potencial identificado e a sua concretização estratégica em Portugal.
Um recurso subestimado à escala global
A intervenção do Professor Leonel Pereira, da Universidade de Coimbra, referência internacional na biologia de macroalgas, deu o mote com uma abordagem científica rigorosa à biodiversidade e funcionalidade destas espécies. A elas se seguiu a perspetiva empresarial de Ruben Jorge, CEO da WeDoTech, que apresentou soluções tecnológicas para a sua valorização. Ambas as intervenções convergiram numa ideia-chave: as “florestas azuis” – densos leitos subaquáticos de macroalgas – são ativos multifuncionais com aplicações que vão muito além da alimentação ou fertilização.
Portugal, com mais de 2.000 km de costa e uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas da Europa, dispõe de um capital natural abundante, mas ainda largamente inexplorado. Historicamente, o sargaço foi utilizado como fertilizante pelas comunidades costeiras, uma prática hoje em declínio, justamente numa época em que a procura por soluções naturais e sustentáveis nunca foi tão elevada.

Estratégias de valorização económica
A versatilidade das macroalgas é notória:
– Agricultura: biofertilizantes e bioestimulantes com propriedades que aumentam a resiliência das culturas e a saúde dos solos.
– Alimentação animal: melhoria da digestão e redução das emissões de metano em ruminantes.
– Indústria alimentar: desde o consumo direto – nori, kombu, alface-do-mar – até à criação de novos produtos como conservas enriquecidas com algas (ex: Triteia).
– Cosmética e farmacêutica: extração de compostos bioativos como alginatos (E400-405), agar (E406) e carragenanas (E407), com propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e hidratantes.
– Construção civil: materiais inovadores, como isolantes naturais produzidos a partir de algas secas, ou tijolos desenvolvidos a partir de sargaço, com capacidade de sequestro de carbono.
O conceito de biorrefinaria de algas foi apontado como um dos eixos mais promissores, permitindo extrair valor máximo a partir de um único recurso, segundo modelos circulares e sustentáveis.

Serviços ecossistémicos: o capital invisível
Para além das aplicações industriais, as florestas azuis prestam serviços ecossistémicos de alto valor: funcionam como berçários marinhos, atuam na filtragem de nutrientes, reduzem a erosão costeira e, acima de tudo, desempenham um papel fundamental na captura de carbono. Tal como as florestas terrestres, as macroalgas absorvem CO₂ através da fotossíntese e contribuem de forma significativa para a produção global de oxigénio – razão pela qual os oceanos começam a ser designados como o verdadeiro “pulmão do planeta”.

Obstáculos à valorização estratégica
Apesar deste potencial reconhecido, a ausência de uma estratégia nacional clara continua a limitar o desenvolvimento do setor. Persistem lacunas críticas:
– Falta de mapeamento sistemático dos leitos de macroalgas.
– Quadro legislativo fragmentado e competências sobrepostas entre entidades reguladoras.
– Ausência de incentivos e visão integrada de política pública.
– Falta de regulamentação para a gestão sustentável de espécies invasoras, como a Rugulopteryx okamurae, cuja proliferação já afeta o Algarve.
Estas debilidades contribuem para que as algas continuem a ser encaradas como um passivo ambiental em vez de uma oportunidade económica e ecológica.

Caminhos para uma nova abordagem
O seminário reforçou a urgência de uma visão ambiciosa e coordenada que potencie a Economia Azul com base na valorização sustentável das macroalgas. Isso implica:
– Investimento em investigação aplicada e transferência de conhecimento entre academia, empresas e Estado.
– Capacitação técnica dos quadros da administração pública.
– Criação de incentivos económicos ligados à conservação ambiental.
Estímulo a projetos-piloto e iniciativas empresariais em setores-chave.
A Economia Azul não é uma abstração: é uma oportunidade concreta de transformar o litoral português numa plataforma de inovação sustentável, com impactos tangíveis no tecido económico, ambiental e social. As florestas azuis estão prontas para ser o próximo capítulo da transição ecológica – falta apenas a coragem de as integrar plenamente nas estratégias nacionais de desenvolvimento.

