O custo invisível das decisões está presente em todas as escolhas de gestão, mesmo quando os resultados parecem positivos. Cada decisão envolve ganhos claros, mas também perdas que nem sempre reconhecemos de imediato, sobretudo quando o foco está excessivamente nos resultados de curto prazo.
O economista norte-americano Thomas Sowell sintetizou esta ideia com clareza brutal ao afirmar que “there are no solutions, only trade-offs”. Procurar o melhor compromisso possível é, realisticamente, o melhor que podemos alcançar. Portanto decidir bem não é encontrar soluções perfeitas, mas aceitar que toda a decisão implica escolhas difíceis e consequências inevitáveis.
O custo invisível das decisões na gestão
Quando incorporamos este princípio no pensamento de gestão, evitamos miopias organizacionais e decisões mal calibradas. Além disso reduzimos ciclos de entusiasmo efémero que tendem a gerar frustrações transversais quando as expectativas não se confirmam.
Assim a utilidade desta perspetiva é maior do que parece. Ajuda líderes a antecipar consequências, a compreender impactos indiretos e a agir com maior consciência estratégica, mesmo em contextos de elevada pressão e incerteza.
No entanto muitas organizações continuam a avaliar decisões apenas pelos ganhos visíveis. O custo invisível das decisões permanece fora da equação, limitando a qualidade da liderança e comprometendo a sustentabilidade das escolhas.
Trade-offs como realidade inevitável
O trabalho remoto, por exemplo, amplia a flexibilidade e o acesso ao talento global. Por outro lado afeta a coesão das equipas, a identidade cultural das organizações e a aprendizagem informal que acontece no dia a dia.
A inteligência artificial pode reduzir emissões ao otimizar cadeias logísticas e processos operacionais. No entanto exige volumes significativos de energia e água para funcionar, criando novos dilemas que raramente entram na narrativa da inovação tecnológica.
As políticas de diversidade e inclusão aumentam a representatividade e a pluralidade de perspetivas nas organizações. Além disso exigem investimento contínuo, maior complexidade nos processos de decisão e competências de liderança mais sofisticadas para gerir fricções e capitalizar sobre o desacordo positivo.
Em todos estes casos, os ganhos são reais. Assim como as perdas. Ignorá-las não as elimina. Apenas as adia.
Tornar visível o custo invisível das decisões
Ainda assim, continuamos a procurar “a” solução. A metodologia certa, a nova plataforma colaborativa ou o modelo definitivo que permitirá à empresa prosperar sem custos aparentes.
No entanto o verdadeiro desafio da gestão não é eliminar trade-offs. Isso é impossível. O que realmente importa é tornar o custo invisível das decisões visível, compreensível e deliberado, criando espaço para escolhas mais conscientes e responsáveis.
Portanto a intencionalidade passa a ser um critério central da liderança. Só assim conseguimos otimizar trade-offs e, em alguns casos, reinventá-los, algo cada vez mais necessário no contexto atual.
Capacidades-chave para decisões sustentáveis
Para gerir decisões complexas, precisamos de desenvolver capacidades específicas. Destaco três. Não por serem as únicas, mas porque ativam muitas outras.
A curiosidade permite escutar genuinamente e ir além das respostas fáceis, ajudando a evitar conclusões apressadas. A criatividade ajuda a questionar pressupostos, aceitar riscos e redefinir o insucesso como parte do processo. Portanto o risco deixa de ser um bloqueio e passa a ser uma fonte de aprendizagem.
A empatia, por sua vez, permite compreender interesses divergentes sem os simplificar. Por outro lado exige maturidade emocional e abertura ao desacordo construtivo, condições essenciais para decisões sustentáveis em contextos organizacionais complexos.
Liderar em contextos de elevada incerteza
Gerir a mudança é, no fundo, equilibrar ganhos com perdas aceitáveis. Além disso exige coragem para reconhecer limites e assumir responsabilidades pelas escolhas feitas.
Só quando identificamos claramente os trade-offs conseguimos liderar transformações verdadeiramente sustentáveis e humanas. Este exercício torna-se ainda mais relevante num contexto geopolítico profundamente instável, marcado por conflitos armados, tensões económicas e incerteza estrutural.
Assim a liderança exige mais do que confiança. Exige lucidez, capacidade de reflexão e disposição para decidir mesmo quando não existem soluções perfeitas.
Artigo por Margarida Pedro, Consultora e Docente Convidada da Porto Business School

