Start / Insights / Artigos / Não temos motivo nenhum para não ter esperança.
Artigo

Não temos motivo nenhum para não ter esperança.

Data
10 de Maio, 2020

Não temos motivo nenhum para não ter esperança. Mas temos também de ter responsabilidade.Nos últimos meses, o mundo assistiu à rápida disseminação do novo coronavírus. De pequeno surto a pandemia global, em pouco mais quatro meses a Covid-19 chegou e atingiu-nos a todos. Colocou-nos em isolamento, afetou economias e criou restrições a pelo menos de um terço da população mundial.Apesar de estarmos em modo reação, este momento deve ser encarado como uma oportunidade para reflexão, também na Ciência. Uma rápida e evidente conclusão a que todos chegámos, com esta pandemia, é que a Ciência e os cientistas são importantes. Se algo que se tornou claro durante esta pandemia, é que a Ciência feita ao longo destes anos está a revelar-se essencial no desenvolvimento de respostas e tratamentos à Covid-19.António de Sousa Pereira, Reitor da Universidade do Porto [e médico] foi o mais recente convidado do Dean’s Lounge. Numa conversa informal com Patrícia Teixeira Lopes, associate dean da Porto Business School a propósito da “Ciência da Pandemia”, o Reitor da Universidade do Porto partilhou a sua visão sobre a mudança de paradigma eminente, na Ciência.Segundo o Reitor da Universidade do Porto, “temos atualmente doenças de países pobres, que não merecem grande atenção por parte da grande investigação internacional. Felizmente, temos doações de fundações como a fundação Bill & Melinda Gates, mas os avanços no combate a doenças como a malária ou a tuberculose têm sido muito poucos”. O grande investimento tem recaído na investigação do prolongamento da vida. Veja-se o investimento da Google e da Microsoft na replicação celular perfeita, em projetos como o Calico – California Life Company.“A COVID-19 veio colocar-nos os pés no chão. Estávamos no domínio do mirabolante, com investimentos de milhões em técnicas sofisticadíssimas que iriam estar acessíveis apenas a alguns e, de repente, estes que pensavam poder comprar com dinheiro a eternidade, percebem que há uma coisa tão simples como um vírus que pode destruir a vida destes, que se julgavam ser absolutamente inatacáveis”.Para António de Sousa Pereira, o contexto que estamos a viver obriga a repensar tudo o que estava a ser feito. “Vamos ter de perceber que só somos saudáveis se a sociedade em que estamos inseridos for saudável.”E aponta o caso paradigmático de Singapura, país exemplar no combate à COVID-19 , mas que, por não ter em consideração as comunidades imigrantes a viver em guetos, não conseguiu controlar a disseminação da doença e deixou cair por terra todo o trabalho desenvolvido. E isto obriga a repensar tido aquilo que estava a ser feito, obriga a que as Nações olhem para doenças não tão sofisticadas” e se tomem decisões de investimento que possam beneficiar toda a humanidade.Para isso, a cooperação entre países é essencial. Talvez por isso, António de Sousa Pereira mostra-se preocupado com a posição dos EUA –  “Quando vemos que uma das nações tecnologicamente mais evoluída se está a colocar à margem de tudo isto, fico preocupado. Pensar que a Ciência, de uma certa forma global, possa evoluir sem a participação dos EUA é estranho para mim, pelo menos para já.”Sobre a capacidade de adaptação da Ciência, António de Sousa Pereira é claro, no papel que os decisões políticas (e económicas) têm: “a Ciência tem tido uma capacidade enorme de se adaptar às circunstancias. E diga-se circunstâncias como sinónimo de financiamento. Quando os decisores decidem o investimento para uma determinada área, a Ciência vai atrás desse financiamento. Foi o que aconteceu recentemente. A União Europeia muito rapidamente decidiu criar um programa para financiar projetos na área da COVID-19 e a resposta da nossa comunidade foi fantástica. Os nossos laboratórios mudaram rapidamente a direção e estão a fazer investigação aplicada e a fazer bem.”Um sinal promissor de viragem no rumo que a investigação científica que a a Europa estava a seguir. – “A Europa andava muito diletante (…), andava a fazer investigação sem rumo. Neste momento, acho que já todos perceberam, na Europa, que a investigação tem de ser direcionada para os produtos inovadores e para a criação de mais-valia. Esta é uma consequência já visível [do contexto] e que acredito que já não volte atrás. (…)Não temos motivo nenhum para não ter esperança. Mas temos também de ter responsabilidade.”