Uma das perguntas que me fazem com mais frequência quando falo sobre transformação digital com líderes urbanos, responsáveis públicos e empresas tecnológicas é surpreendentemente simples:
Porque devemos falar de Smart Communities em vez de Smart Cities?
A resposta vai muito além da terminologia. Reflete uma mudança fundamental na forma como compreendemos os territórios, a inovação e o papel que a tecnologia desempenha na criação de impacto relevante.
Para além da cidade
Durante mais de uma década, o conceito de Smart Cities dominou a agenda da inovação urbana. Governos em todo o mundo investiram milhares de milhões de euros em programas ambiciosos, na expectativa de que as tecnologias digitais transformassem profundamente a forma como os nossos territórios funcionam. No entanto, persiste um equívoco fundamental: continuamos a confundir cidade com município.
Quando pensamos em Smart Cities, imaginamos quase de imediato câmaras municipais, serviços públicos, sensores, plataformas digitais e gestão urbana. Embora estes elementos sejam, sem dúvida, importantes, representam apenas uma parte de um ecossistema muito mais amplo.
A realidade é que uma proporção significativa da população europeia não vive em grandes cidades. Muitas pessoas vivem em vilas, aldeias, zonas suburbanas ou regiões rurais. Mesmo quem reside em grandes áreas metropolitanas raramente vive a cidade como uma entidade única. Pelo contrário, vive, trabalha, estuda, consome e interage em múltiplas comunidades sobrepostas.
Estas comunidades podem ser bairros, campus universitários, parques industriais, zonas empresariais, destinos turísticos, ecossistemas de inovação ou, simplesmente, grupos de pessoas ligadas por interesses partilhados e desafios comuns. São os espaços onde se constroem relações, se prestam serviços e onde a inovação, em última análise, cria valor.
É aqui que a transformação acontece verdadeiramente.
Os limites de uma estratégia única para todos
Durante muitos anos, as estratégias de transformação digital seguiram, em grande medida, um modelo top-down. Os governos definem prioridades, investem em tecnologia e esperam que a inovação se propague naturalmente por todo o território.
Na prática, esta abordagem tem frequentemente dificuldade em gerar impacto duradouro.
As comunidades são, por natureza, diversas. Enfrentam desafios diferentes, têm diferentes níveis de maturidade digital e evoluem a ritmos distintos. As suas atividades económicas, dinâmicas sociais e estruturas de governance são igualmente diversas.
Tentar resolver todos os desafios através de uma única estratégia resulta, muitas vezes, em soluções que não se ajustam particularmente bem a ninguém.
Uma transformação digital de elevado impacto exige algo diferente: compreender as realidades locais, envolver diretamente os stakeholders e desenvolver soluções que respondam às necessidades específicas de cada comunidade, contribuindo ao mesmo tempo para uma visão territorial coerente.
As comunidades são muito mais do que municípios
Outro equívoco comum é pensar que os municípios são as únicas organizações responsáveis por moldar o futuro dos nossos territórios.
Na realidade, cidades e regiões são ecossistemas complexos, onde organizações públicas, privadas, académicas e cívicas interagem continuamente para prestar os serviços que permitem às comunidades prosperar.
A mobilidade é um exemplo simples. Raramente os municípios gerem sozinhos todo o ecossistema de mobilidade. As autoridades regionais de transportes definem políticas, enquanto operadores públicos e privados gerem autocarros, sistemas de metro, caminhos de ferro, serviços de mobilidade partilhada e redes logísticas. O mesmo se aplica à energia, água, gestão de resíduos, telecomunicações, saúde, educação, segurança pública e cultura, áreas em que as responsabilidades estão distribuídas por múltiplas organizações.
As universidades geram conhecimento e talento. As empresas tecnológicas fornecem infraestrutura digital e soluções inovadoras. As empresas locais criam valor económico. As organizações comunitárias reforçam a coesão social. Cada uma contribui para a qualidade de vida sentida pelos cidadãos.
O desafio está no facto de estas organizações operarem frequentemente com objetivos, modelos de governance, tecnologias, standards de dados e ciclos de planeamento diferentes.
Construir comunidades verdadeiramente inteligentes exige, por isso, muito mais do que implementar novas tecnologias. Exige criar condições para a colaboração, permitindo que diferentes atores trabalhem para resultados comuns, respeitando simultaneamente as suas responsabilidades individuais.
A tecnologia não é o maior desafio
Ao contrário do que muitos ainda acreditam, a tecnologia já não é a principal barreira.
Hoje temos acesso a cloud computing, Inteligência Artificial, Digital Twins, IoT, análise avançada de dados, standards abertos e plataformas digitais cada vez mais sofisticadas. Os blocos tecnológicos essenciais estão, em grande medida, disponíveis.
O verdadeiro desafio é o alinhamento.
Alinhamento entre organizações públicas e privadas. Alinhamento entre estratégias locais, regionais e nacionais. Alinhamento entre investimentos tecnológicos e necessidades sociais. Alinhamento entre modelos de governance, práticas de partilha de dados e objetivos de longo prazo.
Acima de tudo, uma transformação digital bem-sucedida depende do alinhamento das pessoas.
A tecnologia pode permitir a mudança, mas só a colaboração consegue sustentá-la.
Construir uma linguagem comum
Ao longo da última década, uma lição tornou-se cada vez mais clara nas iniciativas de Smart Cities bem-sucedidas: a transformação acelera quando todos os stakeholders falam a mesma linguagem.
Equipas técnicas municipais, utilities, operadores de infraestruturas, fornecedores de tecnologia, investigadores, consultoras, agências públicas e empresas privadas trazem todos contributos valiosos. No entanto, se não partilharem conceitos, princípios de governance, metodologias e standards comuns, a colaboração torna-se desnecessariamente difícil.
Criar esta linguagem comum é um dos investimentos mais importantes que qualquer território pode fazer.
Reduz mal-entendidos, simplifica a cooperação, acelera a implementação de projetos, melhora a interoperabilidade e permite que os investimentos gerem um impacto significativamente maior ao longo do tempo.
Diferentes comunidades, diferentes ritmos
Outra vantagem de adotar uma perspetiva de Smart Communities é reconhecer que a transformação não precisa de acontecer em todo o lado ao mesmo ritmo.
Algumas comunidades estão preparadas para implementar serviços públicos potenciados por IA. Outras precisam primeiro de melhorar a governance dos dados ou a infraestrutura digital. Algumas exigem parcerias mais fortes entre organizações públicas e privadas, enquanto outras precisam de desenvolver capacidades internas antes de escalar a inovação.
Em vez de forçar todos os territórios a seguir o mesmo roadmap, as Smart Communities reconhecem estas diferenças. Oferecem um enquadramento estratégico comum, permitindo que cada comunidade evolua de acordo com as suas próprias prioridades, maturidade e capacidade.
Esta flexibilidade cria resiliência, incentiva a experimentação e permite que as boas práticas se disseminem naturalmente entre territórios.
Preparar os líderes de amanhã
Foi precisamente esta visão que inspirou o Advanced Program in Smart Communities da Porto Business School.
O programa foi desenhado a partir de uma convicção simples: o futuro dos nossos territórios dependerá menos de projetos tecnológicos isolados e muito mais da capacidade das pessoas e das organizações colaborarem para além das fronteiras institucionais.
Por esta razão, o programa reúne profissionais de municípios, autoridades regionais, agências públicas, utilities, empresas de engenharia, fornecedores de tecnologia, consultoras e outras organizações envolvidas na gestão e transformação dos territórios.
O objetivo não é apenas compreender tecnologias emergentes. É desenvolver uma compreensão partilhada de como dados, Inteligência Artificial, plataformas digitais, governance, inovação e colaboração organizacional podem ser combinados para responder a desafios sociais reais.
Em última análise, o programa procura criar algo que muitas vezes falta nas iniciativas de transformação digital: uma linguagem comum que permita às organizações públicas e privadas trabalharem em conjunto de forma mais eficaz.
Porque o futuro dos nossos territórios não será moldado por municípios a agir isoladamente, nem pela tecnologia por si só.
Será construído por comunidades — conectadas, colaborativas e cada vez mais inteligentes.
Artigo por Paulo Calçada, CEO of Knowledge.Space e Diretor de Programa do Programa Avançado em Smart Communities.
