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Artigo

Portugal e Brasil na era da IA: a ponte que ainda falta construir

Data
29 de Setembro, 2026

Imagine duas reuniões de administração na mesma manhã. Uma acontece em São Paulo, outra no Porto. Em ambas, a pergunta parece ser tecnológica: onde investir em inteligência artificial? Mas, poucos minutos depois, torna-se evidente que a decisão é outra.
Que processos devem mudar? Quem assume responsabilidade quando uma máquina recomenda um caminho? Que talento será necessário daqui a três anos? E como acelerar sem comprometer confiança, sustentabilidade e reputação?

É aqui que começa a próxima etapa da relação entre Portugal e Brasil.
Durante décadas, aproximámo-nos pela língua, pela história e pela cultura. Essa proximidade abriu portas e facilitou relações. Agora, precisa de ganhar uma função económica mais ambiciosa: ajudar empresas dos dois lados do Atlântico a aprender mais depressa e a tomar melhores decisões num período de transformação profunda.
A aplicação provisória do Acordo Comercial Interino entre a União Europeia e o Mercosul reforça esta oportunidade. Reduzir barreiras e ampliar o acesso aos mercados cria uma estrada entre os dois blocos. Contudo, uma estrada só produz valor quando existem empresas preparadas para a percorrer. A competitividade será decidida pela capacidade de interpretar regras, integrar cadeias de valor, adaptar produtos, governar dados e responder a exigências ambientais cada vez mais elevadas.


Portugal e Brasil partem com ativos diferentes e complementares. O Brasil oferece escala, diversidade empresarial e contextos onde novas soluções podem ser testadas com rapidez. Portugal acrescenta proximidade à regulação europeia, acesso a outros mercados e uma posição natural de ligação entre geografias. Em conjunto, podem criar um espaço transatlântico de experimentação responsável, no qual tecnologia, talento e conhecimento circulam com confiança.


Esse potencial exige uma mudança na agenda das lideranças. A inteligência artificial entrou nas empresas através das ferramentas, mas o seu impacto chegará através das decisões. Vai alterar a distribuição de responsabilidades, o desenho das funções, a relação entre experiência humana e recomendação algorítmica e até a velocidade com que uma organização aprende.
Os líderes terão, por isso, de desenvolver uma competência menos visível do que o domínio tecnológico: a capacidade de formular perguntas melhores. Uma resposta produzida em segundos continua a ter pouco valor quando parte de uma pergunta errada. Automatizar um processo ineficiente apenas permite executar o erro com maior velocidade.

A sustentabilidade acrescenta outra camada a esta transformação. Dados, energia, cadeias de fornecimento e impacto social passam a fazer parte da mesma decisão estratégica. As empresas que tratarem inteligência artificial, transformação digital e sustentabilidade como agendas separadas perderão coerência, talento e tempo.
É aqui que escolas de negócios globais, como a Porto Business School, ganham uma responsabilidade acrescida. Devem funcionar como laboratórios onde executivos de diferentes países analisam problemas reais, confrontam modelos de gestão, testam decisões e aprendem a liderar em contextos que ainda não têm respostas prontas.

A oportunidade de uma ligação mais profunda entre Portugal e Brasil está em transformar a confiança histórica numa infraestrutura de aprendizagem, capaz de aproximar empresas, universidades, câmaras de comércio, líderes e novos talentos em torno de desafios concretos.
Voltemos às duas reuniões daquela manhã. A empresa vencedora não será necessariamente a que comprar primeiro a ferramenta mais avançada. Será aquela que conseguir alinhar tecnologia, pessoas e propósito, aprendendo mais depressa do que a mudança à sua volta.
A língua permitiu-nos conversar durante séculos. A próxima década dependerá do que formos capazes de construir a partir dessa conversa.

Artigo de opinião da autoria de João Coelho Magalhães, International Business Development Director da Porto Business School. Este artigo foi publicado orignalmente na edição n.º 1152 da revista “Câmara Portuguesa em Revista”, da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil.