A sustentabilidade entrou definitivamente no vocabulário institucional – está nos relatórios, nas estratégias, nos discursos empresariais e políticos. Presta-se com frequência a diversas operações de washing e repete-se tantas vezes, que o significado parece escapar-nos.
O modelo ESG — Environmental, Social and Governance — trouxe alguma disciplina à forma como as organizações integram fatores não financeiros e representou um avanço significativo no enquadramento e na sistematização das questões de sustentabilidade, mas o compromisso continua a ser transversalmente insuficiente e as métricas permanecem pouco operativas ou excessivamente formais.
Acresce a isto um vetor de complexidade inovador, que perturba a compreensão conceptual e dificulta a perceção da hierarquia axiológica que se impõe reconhecer – refiro-me a uma dimensão anterior a todas as outras, que é o ambiente informacional onde estes temas são constantemente lançados e discutidos.
Debatemos alterações climáticas, biodiversidade e transição energética num espaço público moldado por algoritmos cuja prioridade não é a verdade, mas o engagement. No entanto, estes temas exigem análise de longo prazo, ao passo que o ambiente digital vive da reação imediata. Não se trata apenas de comunicação – é ao próprio processo de formação de opiniões que me refiro e dirijo-me em primeira linha ao ambiente das “redes”, sem cuidar de aqui analisar detalhadamente a estratégia intencional de quem controla as infraestruturas digitais nem os interesses económicos que moldam os algoritmos.
É neste contexto que proponho o conceito de DESG — Digital, Environmental, Social and Governance. O “D” que acrescento pretende ser estrutural – convoca a sustentabilidade do espaço digital enquanto ecossistema de conhecimento saudável, protegido da desinformação organizada e de polarizações artificiais, promotor da confiança na evidência científica e ciente das fragilidades da “economia da atenção”.
Governança algorítmica, responsabilidade informacional e métricas de integridade digital são apenas algumas das pedras de toque em torno das quais o conceito se deverá tornar operativo – trata-se de uma camada prévia, que possa orientar a navegação no oceano da informação.
Quando entro no mar com o meu escafandro, raramente consigo ver o fundo desde a superfície ou apreender correntes, vida marinha, perigos ou cores. Mas à medida que vou mergulhando mais fundo e a pressão absoluta cresce, tudo se torna mais nítido e compreensível, com método, tempo e respeito pelo ambiente a explorar.
Também a ciência funciona assim. Modelos climáticos, cadeias ecológicas ou dinâmicas oceânicas não se deixam reduzir a frases simples; são antes o resultado da acumulação de dados, teste de hipóteses e validação contínua.
O contraste com o ambiente digital dominante é evidente – a experiência de “scroll” permanente transmite sensação de atualização, mas não promove aprofundamento, pois que a velocidade tende a substituir a reflexão. É impossível gerir sistemas complexos se o debate público privilegiar respostas instantâneas a perguntas que exigem tempo e cadência.
Neste contexto, a academia desempenha um papel que vai muito além da investigação especializada. Representa um espaço onde a dúvida não é sinal de fraqueza, mas parte do processo e onde a discordância é metodológica e não tribal. A Universidade e as Business Schools mantêm critérios que não dependem de popularidade nem pressupõem resultados rápidos – e em matérias como clima, biodiversidade, concertação social ou sociologia das organizações, esses critérios são vitais.
A liberdade académica não é uma abstração; é uma condição sine qua non do conhecimento e dos resultados que a ciência a cada momento propõe como verdades.
Falar de sustentabilidade digital não significa, portanto, limitar o debate, antes reforçar literacia científica e reconhecer que a arquitetura digital influencia opiniões e decisões reais, cuja qualidade e acerto se apoiam na robustez do conhecimento utilizado. Quando a desinformação circula com maior intensidade do que a evidência, o resultado não é pluralismo; é confusão. E a confusão não é neutra.
Em sistemas naturais, bem como em sistemas sociais, os atrasos e os erros na ação acumulam-se. A natureza e a vida das pessoas não reagem a opiniões, mas a concentrações de CO₂, a alterações de temperatura média, a taxas de desflorestação e a acidificação dos oceanos.
A academia tem a responsabilidade de zelar pelo contexto da informação e do debate – tanto online, como offline. É a primeira das instituições (essa ficção genial da qual depende o sucesso das nações, como é sabido) a quem compete a defesa do conhecimento e da metodologia de formação do conhecimento.
A academia tem de liderar uma nova epistemologia digital. A Porto Business School, enquanto instituição comprometida com a reflexão estratégica e com a formação de líderes, pode e deve participar nesta construção.
Se a sustentabilidade significa responsabilidade intergeracional, então significa também a preservação das instituições que permitem distinguir evidência de narrativa – proteger florestas e oceanos é essencial; proteger os mecanismos de produção de conhecimento é igualmente essencial.
Entre a superfície e a profundidade existe uma escolha – a primeira satisfaz a curiosidade imediata, mas a segunda, que exige disciplina e método, permite ler a realidade e intervir sobre ela de forma sustentável. A sustentabilidade, que implica a gestão responsável de sistemas complexos ao longo do tempo, não se constrói à superfície.
Não há futuros sustentáveis sem conhecimento – o desafio é recuperar a profundidade.

