Porque é que a oposição está a crescer
A sustentabilidade empresarial está a atravessar um dos períodos mais desafiantes de sempre. Os orçamentos estão a encolher, equipas estão a ser desfeitas e compromissos ambiciosos começam a ser diluídos. O que explica este retrocesso? Dois fatores, ambos começados por “T”.
O primeiro é o fator Trump. De forma bastante direta, a base MAGA rejeita tudo aquilo que a sustentabilidade passou a representar: mudanças climáticas (um “hoax”), multilateralismo (tarifas, muros fronteiriços, saída do Acordo de Paris), diversidade e inclusão (“woke”) ou práticas regenerativas (“drill baby drill”).
O segundo “t” diz respeito ao timing. Os executivos têm hoje uma pressão enorme: instabilidade geopolítica, crescimento económico anémico e prioridades concorrentes. Com tantos incêndios para apagar, instala-se a ideia de que a sustentabilidade pode esperar. “Continuamos comprometidos”, dizem; em voz baixa, “… quando o resto estiver resolvido”.
Como chegámos aqui
Em parte, estes problemas foram criados pela própria evolução do movimento. No que toca ao chamado “ESG backlash”, a sustentabilidade não caiu acidentalmente nas guerras culturais; entrou nelas de forma assumida. De direitos LGBTQ+ à desflorestação da Amazónia, esperou-se que as empresas tomassem posições públicas. Algumas alinharam; a maioria não. Quando Trump fez o pêndulo cultural oscilar na direção oposta, muitas empresas tradicionais respiraram de alívio e convenceram-se de que “o negócio voltou ao negócio”.
O problema do timing é ainda mais complexo. Toda a evidência científica aponta para urgência. O planeta continua a aquecer, apesar de mais uma cimeira climática da ONU sem resultados à altura do desafio. Estamos a perder espécies a ritmos inéditos, à medida que florestas ardem e a agroindústria se expande. E as pessoas — sobretudo as “99%” — estão cansadas e frustradas. Ainda assim, a mensagem não está a entrar nos conselhos de administração. Por mais alto que soe o alarme, o mundo das fusões, aquisições e MBAs continua a girar como sempre.
Porquê? Porque, para já, nem glaciares a derreter, nem ecossistemas fragilizados são vistos como “críticos para o negócio”. Isto não significa que não venham a afetar a economia (vão). Nem que não constem dos registos de risco corporativo (constam). Significa apenas reconhecer a incómoda verdade: por enquanto, o business-as-usual ainda consegue avançar. Em suma, a pluricrise está perto, mas não perto o suficiente.
Como as empresas estão a reagir
Perante este cenário, a área da sustentabilidade recuou para modo defensivo. Na prática, isto traduz-se em falar menos e esperar que o vento mude. Muitos executivos garantem que continuam a avançar, apenas de forma mais discreta — uma tendência que já ganhou nome: “greenhushing”. Talvez seja verdade, talvez não. O que é certo é que a pressão para provar valor aumentou drasticamente. Se uma solução ecológica reduz custos ou uma linha circular traz vendas, fica. Tudo o resto está a ser cortado. O resultado é uma sustentabilidade mais enxuta, mais pragmática e menos tolerante a desvios.
Porque este ajuste era inevitável
De certa forma, esta correção não é totalmente negativa. A sustentabilidade teve uma década de forte expansão, passando da periferia para o centro das decisões empresariais. No processo, perdeu alguma clareza e acabou a prometer ser tudo para todos. Nenhum movimento aguenta esse peso. Nos primeiros anos, foi fácil encontrar soluções “win-win”: eficências energéticas, menos desperdício, produtos melhorados. Mas esse “fruto fácil” já foi quase todo colhido. O que sobra exige investimento, esforço e visão a longo prazo — três coisas escassas no ambiente empresarial atual.
Não surpreende, por isso, que Wall Street veja esta mudança com bons olhos. A sustentabilidade, na sua forma mais ambiciosa, questionou a maximização do lucro, exigiu atenção ao planeta e defendeu que as pessoas valiam mais do que “recursos humanos”. Em suma, pediu uma nova forma de fazer negócio. E isso mexeu com interesses instalados.
A decisão que vai definir o futuro
Tudo isto deixa a sustentabilidade perante uma escolha decisiva. Pode abrandar as suas exigências, jogar segundo as regras tradicionais e só subir a fasquia quando demonstrar retorno financeiro. Ou pode continuar a ser o elemento incómodo, lembrando as empresas de que as crises estão a intensificar-se e que é preciso um novo modelo.
A resposta ainda não está fechada. Todos os sinais atuais apontam para a primeira opção. Qualquer esperança de mudança real depende da coragem de seguir a segunda.
