Quantas reuniões sobre sustentabilidade já viveu que acabaram exactamente onde começaram?
Todos falam, poucos concordam e, no fim, fica a suspeita de que discutimos convicções, não factos. Sejamos claros: o problema raramente é falta de vontade. É excesso de opinião.
Ao longo dos anos, entre a gestão e a sala de aula, fui percebendo que boa parte dos debates ambientais nas empresas assenta em mitos, muitas vezes amplificados pela comunicação social e que repetidos tantas vezes passaram a soar a verdade. Que comer local salva o planeta. Que o crescimento económico e o ambiente são inimigos naturais. Que os oceanos estarão vazios em 2048 por causa do excesso de plástico. Que já é tarde de mais para agir.
Nenhum resiste aos números. E cada um tem uma factura: leva a investir no sítio errado, a alimentar culpa em vez de acção e a esgotar equipas em falsos combates.
Aqui entra a única pergunta que interessa a quem lidera: o pânico climático da sua empresa está a ajudar a decidir, ou apenas a paralisar?
Porque decidir bem não exige transformar cada gestor em cientista de dados. Exige uma fonte fiável que reduza o ruído e devolva clareza. Quando o tempo de análise encolhe e a confiança na decisão sobe, a sustentabilidade deixa de ser tema de discurso e passa a ser tema de gestão. É esta a verdadeira equação.
Não proponho mais uma reunião. Proponho o contrário: menos ruído, mais evidência e a coragem de rever premissas que nunca verificámos.
O mundo não está a acabar. Mas continua em perigo, e pode ser muito melhor. As três coisas são paradoxalmente verdade ao mesmo tempo, e é aí que mora o trabalho de quem decide.
Antes do próximo plano de sustentabilidade, arrume primeiro as ideias. Depois convoque a reunião.
A leitura recomendada
Not the End of the World, de Hannah Ritchie
Hannah Ritchie é cientista de dados e Head of Research no Our World in Data, o projecto da Universidade de Oxford (Oxford Martin School) que se tornou referência mundial no tratamento rigoroso da estatística sobre o estado do planeta. Neste livro, pega nos mitos ambientais mais repetidos e confronta-os, um a um, com a melhor evidência disponível.
Ao longo de oito capítulos, Ritchie percorre os grandes temas de quem hoje tem de decidir: sustentabilidade, poluição do ar, alterações climáticas, desflorestação, alimentação, biodiversidade, plásticos nos oceanos e sobrepesca. Em cada um, o método é o mesmo, e é o que o torna tão útil a um gestor: identificar a narrativa dominante, medi-la contra os dados e mostrar onde vale mesmo a pena concentrar esforço e capital.
Não o leia por dever ambiental, leia-o por interesse de gestão. Uma tarde com este livro poupa-lhe meses de reuniões a discutir mitos. Abra-o hoje, antes do próximo plano de sustentabilidade.
Luís Filipe Reis
Strategy Full Professor, Porto Business School
